Golpes custam US$ 148 bilhões por ano aos americanos, aponta relatório
A Consumer Federation of America estima que consumidores nos EUA perderam US$ 148 bilhões em golpes no último ano, um salto de 22% sobre 2024 — muito acima dos US$ 20,8 bilhões oficialmente registrados pelo FBI IC3. Golpes envolvendo criptomoedas respondem por mais da metade das perdas relatadas, com idosos como o grupo mais visado e prejuízo médio de US$ 38.500 por vítima. O relatório aponta a subnotificação, estimada em 7,1 vezes os números oficiais, como a principal razão da distância entre estatística oficial e realidade.
O relatório da CFA reacende um problema conhecido de quem trabalha com antifraude: os números que orientam políticas públicas e alocação de recursos de investigação — como os do FBI IC3 — são apenas a ponta do iceberg. Enquanto o IC3 registrou US$ 20,8 bilhões em perdas no último ano, a CFA aplica um multiplicador de subnotificação (7,1x) baseado em pesquisas governamentais para chegar à estimativa de US$ 148 bilhões, o equivalente a mais de mil dólares por domicílio americano.
O destaque do levantamento é a concentração de perdas em golpes de criptomoeda, que já respondem por mais da metade do valor relatado e cresceram quase 22% em relação a 2024. Esse padrão é consistente com o modus operandi de esquemas como "pig butchering", em que a vítima é cultivada por semanas ou meses via redes sociais ou apps de relacionamento antes de ser induzida a investir em plataformas de criptoativos fraudulentas que simulam ganhos crescentes até o golpe se consumar. O relatório também identifica corretores de dados (data brokers) como facilitadores, permitindo que golpistas segmentem vítimas vulneráveis com precisão cada vez maior, e cita IA generativa como acelerador de escala e sofisticação desses ataques.
Dois grupos etários chamam atenção nos dados: idosos acima de 60 anos concentram o maior volume de perdas, com alta de 60% e prejuízo médio de US$ 38.500 por caso — reflexo de golpes de investimento e romance scams direcionados a esse público. Já jovens abaixo de 20 anos, embora representem um grupo menor em volume absoluto, tiveram um crescimento de 198% nas perdas relatadas, o que sugere que golpes ligados a criptoativos e esquemas de "emprego fácil" estão penetrando também entre nativos digitais que teoricamente seriam mais céticos.
A subnotificação crônica citada pelo relatório tem causas práticas: vergonha da vítima, canais de denúncia fragmentados entre polícia local, banco, plataforma e órgãos federais, e a percepção de que reportar não leva a recuperação do dinheiro. Do ponto de vista de quem constrói modelos antifraude, isso é um lembrete de que bases de dados de golpes reportados subestimam sistematicamente o problema, e que sinais comportamentais (padrões de transferência atípicos, escalonamento de valores, uso de canais de mensagem específicos) tendem a ser mais confiáveis do que volumes de denúncia para calibrar detecção. Na ponta do consumidor, a recomendação prática permanece a mesma de sempre: desconfiar de qualquer promessa de retorno garantido em criptoativos, verificar de forma independente contatos que pedem transferências urgentes, e denunciar mesmo sem expectativa de recuperação, já que os dados agregados alimentam reguladores e sistemas de prevenção usados por bancos e corretoras.