Operação Jackal IV da INTERPOL prende 58 pessoas e expõe máquina de lavagem por trás de golpes globais
Entre novembro de 2025 e junho de 2026, a Operação Jackal IV da INTERPOL resultou em 58 prisões e na identificação de 263 suspeitos ligados a redes de crime organizado da África Ocidental, incluindo grupos como o Black Axe. A investigação rastreou o fluxo do dinheiro — contas laranja, empresas de fachada e serviços de lavagem terceirizados — usado para escoar lucros de golpes românticos, fraude cripto, investimentos falsos e sextortion, com apreensões que somaram dezenas de milhões de euros só na Romênia.
Os números por país dão a dimensão da operação: na Argentina, 196 indivíduos foram identificados em uma rede de "crime como serviço" que fornecia domínios e suporte de lavagem para grupos da África Ocidental, resultando em 17 prisões; na África do Sul, sete endereços em Johannesburgo foram alvo de ações que renderam 39 prisões, US$ 2,67 milhões apreendidos e 257 contas bancárias congeladas; na Itália, um único operador movimentou €845 mil em 560 transações usando 20 instrumentos financeiros diferentes; e na Romênia, ligada a um centro de chamadas fraudulentas, as autoridades estimam ter neutralizado até €143 milhões, com 11 prisões.
O diferencial estratégico da operação foi não perseguir os golpistas que fazem o primeiro contato com a vítima, e sim seguir o dinheiro depois que ele já foi roubado — mapeando a cadeia de contas laranja, empresas de fachada e provedores de lavagem que atendem múltiplos grupos criminosos como um serviço terceirizado. Essa "última milha" financeira do golpe costuma ser o elo mais visível e rastreável, já que exige movimentação por bancos e exchanges regulados, ao contrário da etapa de engenharia social, que acontece em canais privados e efêmeros.
Para instituições financeiras e times de KYC/AML, o padrão descrito no relatório é exatamente o tipo de comportamento que modelos de risco transacional devem sinalizar: contas recém-abertas movimentando valores incompatíveis com o perfil declarado, fracionamento de grandes somas em muitas transações pequenas, uso de múltiplos instrumentos financeiros por um único operador e contas que funcionam como "hub" recebendo de dezenas de remetentes distintos. Reforçar due diligence sobre esse tipo de conta e cooperar em relatos de suspeita transfronteiriços é o que efetivamente corta o financiamento dessas redes.
Um detalhe que merece atenção do público em geral é que a mesma infraestrutura de lavagem sustenta tanto fraude financeira quanto sextortion contra menores — no caso romeno, vítimas de apenas 14 anos foram coagidas após meses de aproximação em redes sociais. Isso reforça que apoiar denúncias precoces de sextortion e vazamento de dados não é uma pauta isolada de segurança infantil, mas parte do mesmo combate à economia criminosa de fraude em escala.