Ferramenta acadêmica XSplicer rastreia transações entre blockchains e identifica US$ 105,6 milhões em lavagem ligada ao hack da Bybit
Pesquisadores desenvolveram o XSplicer, um sistema forense capaz de reconstruir o rastro de transações entre diferentes blockchains sem depender de acesso privilegiado às pontes (bridges), preenchendo uma lacuna que hoje dificulta investigações de lavagem de dinheiro em cripto. Aplicado a casos reais, a ferramenta recuperou mais de 1.900 transferências após o colapso da Multichain e identificou 754 transferências ilícitas somando US$ 105,6 milhões ligadas à lavagem do hack da Bybit.
O paper parte de um problema concreto para investigadores de crimes financeiros em cripto: pontes entre blockchains (bridges) permitem mover fundos de uma rede para outra, mas o mapeamento entre a transação de origem e a de destino normalmente só existe no backend privado do próprio operador da ponte. Uma pesquisa dos autores com 131 bridges encontrou que apenas 16,79% delas disponibilizam publicamente esse rastreamento completo — o que na prática dá a quem lava dinheiro um ponto cego natural para quebrar a trilha de fundos ilícitos ao trocar de rede.
O XSplicer ataca esse problema sem depender de acesso privilegiado: o sistema deriva especificações semânticas da documentação pública dos protocolos e de exemplos reais de transações, converte isso em parsers e verificadores leves, e prioriza evidências "duras" (invariantes do próprio protocolo) sobre pistas frágeis como proximidade temporal ou coincidência de valores, que se degradam rapidamente sob ruído ou tentativas de ofuscação. Avaliada em sete protocolos de bridge cobrindo EVM, Bitcoin e Solana, a ferramenta atinge 92,5% de recuperação global e mantém 100% de precisão no conjunto de evidências duras mesmo sob ruído adversarial.
O valor prático da ferramenta para o combate à fraude e à lavagem fica claro nos dois estudos de caso: após o encerramento das operações da Multichain, o XSplicer recuperou mais de 1.900 pares de transações históricas que haviam perdido a rastreabilidade; e, aplicado ao rastro de lavagem após o grande hack da exchange Bybit, identificou 754 transferências entre chains, totalizando US$ 105,6 milhões, associadas à movimentação dos fundos roubados.
Para equipes de compliance, exchanges e analistas de blockchain, o resultado é um argumento a favor de investir em rastreamento forense baseado em invariantes públicos dos protocolos, em vez de depender exclusivamente da cooperação voluntária de operadores de bridges — que, como mostra o próprio levantamento, é hoje a exceção e não a regra. Esse tipo de capacidade tende a se tornar componente relevante de programas de KYC/AML para ativos digitais, especialmente diante do volume crescente de lavagem que atravessa múltiplas redes justamente para dificultar a investigação.