Cidadão ucraniano-russo admite culpa por operar rede de 15 mil contas-mula que lavou milhões de cibercriminosos
Oleg Korniev, 42, confessou liderar operações da organização 'Your Mule Cashout' (YMCO), ativa desde 2007, que recrutava cidadãos americanos por e-mails de emprego falso para abrir contas bancárias usadas como mulas financeiras. A rede processou mais de US$ 10 milhões vindos de mais de 750 contas bancárias nos EUA, repassando o dinheiro via Western Union e MoneyGram para 'sacadores' na Moldávia, Ucrânia, Rússia e Letônia. O esquema está ligado a pelo menos US$ 14,7 milhões em perdas confirmadas de vítimas de fraude.
O caso ilustra a peça de infraestrutura que normalmente fica invisível nas notícias de phishing, golpes de romance ou BEC: depois que a vítima transfere dinheiro para o criminoso, alguém precisa 'limpar' esse valor antes que ele chegue ao beneficiário final em outro país. É exatamente essa função que a YMCO vendia como serviço havia quase duas décadas, recrutando pessoas comuns nos EUA por e-mails de 'processamento de pagamentos' que pareciam vagas de emprego legítimas em home office.
O mecanismo funciona em camadas para dificultar o rastreamento: o dinheiro obtido de vítimas de fraude (contas comprometidas, golpes de investimento, romance scams, etc.) é depositado diretamente nas contas bancárias das mulas recrutadas nos EUA. Essas pessoas, muitas vezes sem saber que participam de um crime, repassam os valores via remessas internacionais como Western Union e MoneyGram para uma segunda camada de operadores no Leste Europeu, que finalmente convertem o dinheiro em espécie ou criptoativos para os operadores do esquema original. Korniev atuava nesse segundo nível, gerenciando contratação, desempenho e políticas operacionais da rede como se fosse uma empresa comum.
O que torna esse tipo de estrutura tão resiliente é a divisão de trabalho: quem comete o golpe original (phishing, conta comprometida, romance scam) raramente é a mesma pessoa que lava o dinheiro, e cada mula individual movimenta valores relativamente pequenos — o suficiente para não disparar sozinho os alertas automáticos de compliance bancário, mas que em escala (750+ contas) soma milhões. A operação só caiu após coordenação de autoridades em 27 países, o que reforça que redes de mulas internacionais exigem cooperação multijurisdicional para serem desmanteladas.
Do ponto de vista de prevenção, o episódio reforça por que bancos e fintechs investem em monitoramento comportamental de contas novas que recebem depósitos de múltiplas origens não relacionadas seguidos de saques ou remessas rápidas para o exterior — um padrão clássico de conta-mula. Para o público em geral, o alerta prático é sobre 'vagas de emprego' que envolvem apenas receber e repassar dinheiro em nome de terceiros: esse tipo de oferta é, na prática, recrutamento para lavagem de dinheiro, independentemente de como é anunciado.